“Problema meu! Ninguém tem nada com isso!” Ah... As
delícias do livre arbítrio! Que sensação! Que poder! Subir nos
calcanhares dos próprios desejos e decidir o rumo da vida. Subjugar
a moral dos outros em favor de nós mesmo. Afinal, quem, se não nós?
Esperar a compreensão e a tolerância de outros pode ser uma espera
interminável, uma conquista nunca alcançada. Então, quando o seu eu rompe com paradigmas e moralismos, você será o responsável
solitário por suas ações. Suas escolhas, seu destino, sua vida,
sua responsabilidade. Você, sem pedir permissão para ser você, com
todo o prazer e desventuras que possa acarretar.
Tudo muito lindo, um poema sobre liberdade. Mas não é bem assim. Há
sempre consequências, e dificilmente elas estão limitas a atingir
apenas você. Sempre tem uma zona de impacto. Pequenas, desprezíveis,
essas não são o problema. As irreversíveis são as temidas, os
verdadeiros demônios do futuro imprevisível. Talvez não acredite
em demônios, nem nos metafóricos, tão bonitos. Talvez não
responda por religião ou seita nenhuma. Talvez não acredite em
nenhuma manifestação divina e nem em Deus ou deus. Talvez você
esteja bem consigo e seja senhor da sua consciência. E os possíveis
enganos cometidos na vida não passem de aprendizados legítimos ou
do acaso. Pecados não existem porque não têm necessidade de
existir. Então, confessar o quê? Pra quê?
Numa doação de sangue, num ato tão simples e tão altruísta, você
confessa. Não estou falando do questionário sobre hábitos sexuais,
uso de drogas, medicamentos, tatuagem, doenças cardíacas, etc. que
respondemos a enfermeira. Estou falando da última pergunta, daquele
papelzinho entregue a você, que só você vê a reposta, só com o
seu número de protocolo, com a seguinte pergunta: Você acha que o
seu sangue serve para outros? Não por acaso a perguntinha
chama-se auto exclusão. Sua última chance de responder, de
confessar, sem nenhum julgamento ou constrangimento. Superando toda a
ciência e segurança do exame de sangue que vai ser feito,
independente de qual seja a sua resposta. Um momento de reflexão
sobre todas as suas ações relacionadas ou não com a doação de
sangue, questionado se o mesmo sangue que vive em você pode ser bom
para mais alguém. Se o seu sangue é bom. Se o seu sangue serve. E
aí, todos os seus pecados, seus arrependimentos, suas dores, seus
prazeres, tudo que define a sua vida numa confissão: Essa vida que
corre em mim, serve para mais alguém? Isso é poético. Não importa
o credo, não importa a raça (se é que isso existe), você confronta a si mesmo, sem
moralismos, sem punições.
Pra ver: ONE BLOOD