24 fevereiro 2012

Sangue


Problema meu! Ninguém tem nada com isso!” Ah... As delícias do livre arbítrio! Que sensação! Que poder! Subir nos calcanhares dos próprios desejos e decidir o rumo da vida. Subjugar a moral dos outros em favor de nós mesmo. Afinal, quem, se não nós? Esperar a compreensão e a tolerância de outros pode ser uma espera interminável, uma conquista nunca alcançada. Então, quando o seu eu rompe com paradigmas e moralismos, você será o responsável solitário por suas ações. Suas escolhas, seu destino, sua vida, sua responsabilidade. Você, sem pedir permissão para ser você, com todo o prazer e desventuras que possa acarretar.
Tudo muito lindo, um poema sobre liberdade. Mas não é bem assim. Há sempre consequências, e dificilmente elas estão limitas a atingir apenas você. Sempre tem uma zona de impacto. Pequenas, desprezíveis, essas não são o problema. As irreversíveis são as temidas, os verdadeiros demônios do futuro imprevisível. Talvez não acredite em demônios, nem nos metafóricos, tão bonitos. Talvez não responda por religião ou seita nenhuma. Talvez não acredite em nenhuma manifestação divina e nem em Deus ou deus. Talvez você esteja bem consigo e seja senhor da sua consciência. E os possíveis enganos cometidos na vida não passem de aprendizados legítimos ou do acaso. Pecados não existem porque não têm necessidade de existir. Então, confessar o quê? Pra quê?
Numa doação de sangue, num ato tão simples e tão altruísta, você confessa. Não estou falando do questionário sobre hábitos sexuais, uso de drogas, medicamentos, tatuagem, doenças cardíacas, etc. que respondemos a enfermeira. Estou falando da última pergunta, daquele papelzinho entregue a você, que só você vê a reposta, só com o seu número de protocolo, com a seguinte pergunta: Você acha que o seu sangue serve para outros? Não por acaso a perguntinha chama-se auto exclusão. Sua última chance de responder, de confessar, sem nenhum julgamento ou constrangimento. Superando toda a ciência e segurança do exame de sangue que vai ser feito, independente de qual seja a sua resposta. Um momento de reflexão sobre todas as suas ações relacionadas ou não com a doação de sangue, questionado se o mesmo sangue que vive em você pode ser bom para mais alguém. Se o seu sangue é bom. Se o seu sangue serve. E aí, todos os seus pecados, seus arrependimentos, suas dores, seus prazeres, tudo que define a sua vida numa confissão: Essa vida que corre em mim, serve para mais alguém? Isso é poético. Não importa o credo, não importa a raça (se é que isso existe), você confronta a si mesmo, sem moralismos, sem punições.
 Pra ver: ONE BLOOD

17 fevereiro 2012

20 anos em kilogramas


Joguei a vida fora. Juntei cadernos, desenhos. Juntei o maternal e a oitava série (ou nono ano). Achei minha primeira lagrangiana, olhei para minha caligrafia do C.A. Separei o mapa mundi de 97 feito no papel manteiga, escolhi duas ou três figuras em carbono. Separei espirais de papeis, desgrampiei provas do Fundão. Empilhei uns 20 anos de papel, todos pra reciclar. Guardei duas pastas com o que restou. Passei adiante artigos, livros, revistas. E agora, sem peso nas costas, sem entulho no armário, estou livre para ir. Só não descobri pra aonde vou com o pouco que sobrou. O peso ajudava a definir.

10 fevereiro 2012

Contra Capa

Na livraria, uma encadernação pequena com capa grossa e um elástico usado com fecho, tinha na capa uma caricatura e, logo abaixo, dizia “Fernando Pessoa”. Pensei que se tratasse de uma agenda, na qual a cada grupo de páginas tivesse um verso ou um poema. Mas também podia ser um pocket book, apesar da fecho-elástico. Quando o abri não tinha nada, era o vazio total, nem pauta as páginas tinham. Procurei pela contracapa algum poema, algum verso que sustentasse a promessa de Fernando Pessoa. Nada. Um pequena biografia, talvez? Nada. Nenhuma letra, nem uma frase. Eu já me deparei com várias encadernações assim, eu acho. Algumas belíssimas, temáticas, com a capa da Mata Atlântica e a cada 10 páginas um texto sobre um animal em extinção, ou outro assunto do genêro. Uma agenda da Margaret Mee com uma pequena reprodução por página. Até o caderno do Ben 10 vem com o logo por página. Cada um com uma ideia, cada um com uma proposta. Ainda sim, uma proposta sobre coisa alguma só me leva a pensar que quem compra um Fernando Pessoa vazio, pode ser vazio quanto as páginas.

20 janeiro 2012

Transitividade da vida

Existem as pessoas que f*dem com vc, indiretamente e as pessoas que f*dem vc, diretamente. Quando é intransitivo, f*deu.

06 janeiro 2012

Pra se apaixonar

Esteja próximo o suficiente pra enxergar as qualidades, e longe o bastante pra não ver os defeitos.