28 de fevereiro de 2015

Como escrever um texto acadêmico


Lição #1: transforme a informação de outrem na tua própria

Exemplo:

Promessas de homens sem palavra ou expressões de vontades, que não passam de mentiras, são artimanhas usadas para enganar inocentes. Aqueles que acreditam em propostas sedutoras, esses vêem o amor com algo vazio, desprovido de sofrimento. Nesses casos, aconselha-se cautela, já que:

"O homem que diz "dou", não dá. Porque quem dá mesmo não diz. O homem que diz "vou" não vai. Porque quando foi já não quis. O homem que diz "sou" não é. Porque quem é mesmo "é", não sou. O homem que diz "tou" não tá. Porque quem tá quando quer. Coitado do homem que cai no canto de Ossanha. Traidor! Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor." [1]
É melhor, portanto, envolver-se em situações onde seja explicitado a intenção dos envolvidos com em [2] e [3]. Entretando, chamamos a atenção que os efeitos a longo prazo podem ser nocivos a alta estima, como no caso da mulher sofisticada em [4].  Sendo assim recomendamos dose de respeito [5] e calma [6].
Em trabalhos mais recentes, alguns autores apontam a necessidade de darmos espaço aos equívocos, uma vez que ser você mesmo é só o que você pode fazer [7]. Damos nota ao trabalho de jovens autores que incentivam a superação pessoal levando em consideração a opressão de gênero [8].

Esse trabalho é uma primeira abordagem sobre aspectos muitos comuns da nossa vivência, e tem como objetivo expor alguns resultados muito conhecidos de forma clara e concisa. Lembrando, porém, que somos defensores da liberdade individual. De tal forma que nos resta somente viver e não ter a vergonha de ser feliz [9].


[1] MORAES, Vinicius. "O canto de ossanha". 1966. link
[2] PORTER, Cole. "Just one of those things". 1935. link
[3] KARLIN, Fred; ROYER, Robb; GRIFFIN, Jimmy. "For all we know". 1970. link
[4] ELLINGTON, Duke. "Sophisticated lady". 1932. link
[5] REDDING, Otis. "Respect". 1965. link
[6] MANN. "Be easy". 2005. link
[7] CORNELL, MORELLO, COMMERFORD, B. WILK. "Be yourself". 2005. Tradução livre. link
[8] NASH, KNOWLES, Beyoncé; PENTZ, Wesley; TAYLOR, David; PALMER, Adidja; VAN DE WALL, Nick.  "Run the world (Girls)". 2011. link
[9] GOZAGUINHA Jr, Luiz. "O que é, o que é?" link


24 de dezembro de 2014

Natal, crianças e pais


E perto do Natal, uma notícia feliz e bem natalina:

"Dilma sanciona, sem vetos, lei que prioriza a guarda compartilhada no país".

Nasceu, criou acabou. Começou a era do nasceu, criaram. Agora legalmente e, se deus quiser (porque é Natal), sem mais mimimi.

Que acabem as acusações entre ex-maridos, ex-esposas.  Que a criança realmente aproveite da convivência com ambos os pais ou fique com quem seja melhor. Sem acusações de supostos privilégios ou esteriótipos machistas:

"Fica com a mãe pra ela receber pensão" ou "não fica com pai porque ele não quer".

Fique com quem ficar, seja com um ou com dois, que essas crianças já nascidas ou a nascer sejam mais amadas do que antes.

Dá minha parte, espero dar uma linda boneca de presente pro meu filho (que se, ainda não nasceu) ir brincando de ser papai... :)

20 de dezembro de 2014

Das Sete às Onze


Era noite quando, liquidadas todas as justificativas, saiu. Não sairia naquele dia, não deveria, o animo não o permitia, e o receio o dominava. Tinha essa mania, sempre que as coisas estavam mal, era melhor não provocar. Ou seja: se puder fique em casa para não se arrepender depois. Era uma supertição, mas não gostava de chamá-la assim, já que não era dado a essas bobagens. Apesar disso, intuía, depois de uma péssima semana e da nuvem do mau agorro que deveria permanescer em casa. Sim, porque todas às vezes nas quais avistava uma nuvem arredondada sobre a sua cabeça sabia, por experiências anteriores, que algo ruim iria lhe acontecer. De maneira alguma era superticioso, apenas um homem atento aos fatos a sua volta. Maníaco, talvez. Superticioso jamais!

Ignorando o mau presságio para aquele dia, ainda lhe restava o desanimo. Semana difícil aquela, não apenas o trabalho estava mal, não era só isso. Não havia uma semana ela lhe disse, entre lágrimas, que era o fim. Sem motivo e sem amante. Sem aviso e sem brigas admitiu-se egoísta demais, simplesmente. O que seria isso, afinal? Confuso, sem dúvida. Uma mudança muito dramática em sua minuciosa rotina. Namoradas, afinal, deveriam dar aviso prévio, tal qual empresas a seus funcionários, Tudo seria mais simples se tivéssemos algum tempo para nos adaptarmos a nova realidade, entrar em contato com antigos amores, por exemplo.

Esse cenário todo o cansava, entediava e aborrecia. Por isso mesmo devia sair, diziam os amigos, nada como uma sexta-feira para encher a cara e esquecer dos problemas. E foi, como quem não quer nada além de um copo de cachaça, encontrar os amigos e cair na noite. Trocou a calça de trabalho pela jeans surrada, a camisa social pela camiseta preta; mas os sapatos eram os mesmos, espécie híbrida entre o casual e o social. Encarou-se no espelho sobre a pia do banheiro e passou as mãos molhadas nos cabelos cacheados. Não era vaidoso, já que tinha receio em parecer gay, o que ela dizia ser uma bobagem, porque homem deveria se cuidar tanto quanto a mulher com quem sai. Fazia sentido, tanto é que deixou o cabelo crescer, fazia hidratação e também passou a fazer a sobrancelha. Gostava, só não gostava de admitir que gostava. Não fica bem admitir, não é coisa de homem.

Desceu pelo elevador, e chegando no térreo, a vizinha estava caminho pelo hall. Não teve dúvida: esperou por ela segurando a porta do elevador, só pra conferir aquela gostosa vestindo a roupa ajustada e suada da academia. Como uma conversa tão trivial, um simples boa noite ou como vai, podem ter tanta sensualidade e se transformar na mais provocante das propostas é uma habilidade adquirida ao longo dos anos, e na qual ele é libidinosamente bom. Praticamente esquece porque não ia sair de casa. Na conversa, a vizinha perguntou se ele não gostaria de ir a uma festa com ela. Eles já estavam flertando há um tempo, é verdade, esperando uma oportunidade que não poderia ser mais oportuna. Por que não?

Do apartamento dela, enquanto esta se arrumava, ligou para os amigos avisando que não iria mais e o porquê. Ouviu vários elogios debochados em resposta e riu. Era fácil fingir que estava bem, quase um hábito não demonstrar tristeza. Não que a figura voluptuosa da vizinha não o ajudasse a relembrar como ele era antes da sua namorada. Ajudava. Ah! E como. Mas, agora, enquanto ela se arrumava, a outra o vinha assombrar. Da janela, ele olhava perdido para o calçadão. Copacabana. A conhecida de todos os dias, tão íntima da sua vida, e, inevitavelmente, testemunha das suas caminhadas noturnas, dos beijos molhados sob o entardecer, do cheiro da pele dela banhada pelo sal, a sensação inebriante de sentir o corpo dela vulnerável ao mais singelo toque. Todas as delícias e a privação delas, sem explicação, sem motivo... Alguém o desperta do seu devaneio. Era a vizinha, pronta, falando alguma coisa sobre uma festa. Ele se esquiva, pede desculpas sem saber exatamente pelo quê, e vai embora.

Saiu andando, pela rua, pela calçada, pela areia, deixou ser levado pelas suas lembranças, tão recentes. Resolveu entregar-se aos pensamentos. Ele a amava, não era o momento para sair com a vizinha. Até poderia se arrepender depois. Provavelmente... sem dúvida. Porém, ali, parado em frente ao mar, a única coisa que vinha na sua cabeça era o medo de perdê-la.

(escrito em 2010)






24 de fevereiro de 2012

Sangue


Problema meu! Ninguém tem nada com isso!” Ah... As delícias do livre arbítrio! Que sensação! Que poder! Subir nos calcanhares dos próprios desejos e decidir o rumo da vida. Subjugar a moral dos outros em favor de nós mesmo. Afinal, quem, se não nós? Esperar a compreensão e a tolerância de outros pode ser uma espera interminável, uma conquista nunca alcançada. Então, quando o seu eu rompe com paradigmas e moralismos, você será o responsável solitário por suas ações. Suas escolhas, seu destino, sua vida, sua responsabilidade. Você, sem pedir permissão para ser você, com todo o prazer e desventuras que possa acarretar.
Tudo muito lindo, um poema sobre liberdade. Mas não é bem assim. Há sempre consequências, e dificilmente elas estão limitas a atingir apenas você. Sempre tem uma zona de impacto. Pequenas, desprezíveis, essas não são o problema. As irreversíveis são as temidas, os verdadeiros demônios do futuro imprevisível. Talvez não acredite em demônios, nem nos metafóricos, tão bonitos. Talvez não responda por religião ou seita nenhuma. Talvez não acredite em nenhuma manifestação divina e nem em Deus ou deus. Talvez você esteja bem consigo e seja senhor da sua consciência. E os possíveis enganos cometidos na vida não passem de aprendizados legítimos ou do acaso. Pecados não existem porque não têm necessidade de existir. Então, confessar o quê? Pra quê?
Numa doação de sangue, num ato tão simples e tão altruísta, você confessa. Não estou falando do questionário sobre hábitos sexuais, uso de drogas, medicamentos, tatuagem, doenças cardíacas, etc. que respondemos a enfermeira. Estou falando da última pergunta, daquele papelzinho entregue a você, que só você vê a reposta, só com o seu número de protocolo, com a seguinte pergunta: Você acha que o seu sangue serve para outros? Não por acaso a perguntinha chama-se auto exclusão. Sua última chance de responder, de confessar, sem nenhum julgamento ou constrangimento. Superando toda a ciência e segurança do exame de sangue que vai ser feito, independente de qual seja a sua resposta. Um momento de reflexão sobre todas as suas ações relacionadas ou não com a doação de sangue, questionado se o mesmo sangue que vive em você pode ser bom para mais alguém. Se o seu sangue é bom. Se o seu sangue serve. E aí, todos os seus pecados, seus arrependimentos, suas dores, seus prazeres, tudo que define a sua vida numa confissão: Essa vida que corre em mim, serve para mais alguém? Isso é poético. Não importa o credo, não importa a raça (se é que isso existe), você confronta a si mesmo, sem moralismos, sem punições.
 Pra ver: ONE BLOOD

17 de fevereiro de 2012

20 anos em kilogramas


Joguei a vida fora. Juntei cadernos, desenhos. Juntei o maternal e a oitava série (ou nono ano). Achei minha primeira lagrangiana, olhei para minha caligrafia do C.A. Separei o mapa mundi de 97 feito no papel manteiga, escolhi duas ou três figuras em carbono. Separei espirais de papeis, desgrampiei provas do Fundão. Empilhei uns 20 anos de papel, todos pra reciclar. Guardei duas pastas com o que restou. Passei adiante artigos, livros, revistas. E agora, sem peso nas costas, sem entulho no armário, estou livre para ir. Só não descobri pra aonde vou com o pouco que sobrou. O peso ajudava a definir.