20 de dezembro de 2014

Das Sete às Onze


Era noite quando, liquidadas todas as justificativas, saiu. Não sairia naquele dia, não deveria, o animo não o permitia, e o receio o dominava. Tinha essa mania, sempre que as coisas estavam mal, era melhor não provocar. Ou seja: se puder fique em casa para não se arrepender depois. Era uma supertição, mas não gostava de chamá-la assim, já que não era dado a essas bobagens. Apesar disso, intuía, depois de uma péssima semana e da nuvem do mau agorro que deveria permanescer em casa. Sim, porque todas às vezes nas quais avistava uma nuvem arredondada sobre a sua cabeça sabia, por experiências anteriores, que algo ruim iria lhe acontecer. De maneira alguma era superticioso, apenas um homem atento aos fatos a sua volta. Maníaco, talvez. Superticioso jamais!

Ignorando o mau presságio para aquele dia, ainda lhe restava o desanimo. Semana difícil aquela, não apenas o trabalho estava mal, não era só isso. Não havia uma semana ela lhe disse, entre lágrimas, que era o fim. Sem motivo e sem amante. Sem aviso e sem brigas admitiu-se egoísta demais, simplesmente. O que seria isso, afinal? Confuso, sem dúvida. Uma mudança muito dramática em sua minuciosa rotina. Namoradas, afinal, deveriam dar aviso prévio, tal qual empresas a seus funcionários, Tudo seria mais simples se tivéssemos algum tempo para nos adaptarmos a nova realidade, entrar em contato com antigos amores, por exemplo.

Esse cenário todo o cansava, entediava e aborrecia. Por isso mesmo devia sair, diziam os amigos, nada como uma sexta-feira para encher a cara e esquecer dos problemas. E foi, como quem não quer nada além de um copo de cachaça, encontrar os amigos e cair na noite. Trocou a calça de trabalho pela jeans surrada, a camisa social pela camiseta preta; mas os sapatos eram os mesmos, espécie híbrida entre o casual e o social. Encarou-se no espelho sobre a pia do banheiro e passou as mãos molhadas nos cabelos cacheados. Não era vaidoso, já que tinha receio em parecer gay, o que ela dizia ser uma bobagem, porque homem deveria se cuidar tanto quanto a mulher com quem sai. Fazia sentido, tanto é que deixou o cabelo crescer, fazia hidratação e também passou a fazer a sobrancelha. Gostava, só não gostava de admitir que gostava. Não fica bem admitir, não é coisa de homem.

Desceu pelo elevador, e chegando no térreo, a vizinha estava caminho pelo hall. Não teve dúvida: esperou por ela segurando a porta do elevador, só pra conferir aquela gostosa vestindo a roupa ajustada e suada da academia. Como uma conversa tão trivial, um simples boa noite ou como vai, podem ter tanta sensualidade e se transformar na mais provocante das propostas é uma habilidade adquirida ao longo dos anos, e na qual ele é libidinosamente bom. Praticamente esquece porque não ia sair de casa. Na conversa, a vizinha perguntou se ele não gostaria de ir a uma festa com ela. Eles já estavam flertando há um tempo, é verdade, esperando uma oportunidade que não poderia ser mais oportuna. Por que não?

Do apartamento dela, enquanto esta se arrumava, ligou para os amigos avisando que não iria mais e o porquê. Ouviu vários elogios debochados em resposta e riu. Era fácil fingir que estava bem, quase um hábito não demonstrar tristeza. Não que a figura voluptuosa da vizinha não o ajudasse a relembrar como ele era antes da sua namorada. Ajudava. Ah! E como. Mas, agora, enquanto ela se arrumava, a outra o vinha assombrar. Da janela, ele olhava perdido para o calçadão. Copacabana. A conhecida de todos os dias, tão íntima da sua vida, e, inevitavelmente, testemunha das suas caminhadas noturnas, dos beijos molhados sob o entardecer, do cheiro da pele dela banhada pelo sal, a sensação inebriante de sentir o corpo dela vulnerável ao mais singelo toque. Todas as delícias e a privação delas, sem explicação, sem motivo... Alguém o desperta do seu devaneio. Era a vizinha, pronta, falando alguma coisa sobre uma festa. Ele se esquiva, pede desculpas sem saber exatamente pelo quê, e vai embora.

Saiu andando, pela rua, pela calçada, pela areia, deixou ser levado pelas suas lembranças, tão recentes. Resolveu entregar-se aos pensamentos. Ele a amava, não era o momento para sair com a vizinha. Até poderia se arrepender depois. Provavelmente... sem dúvida. Porém, ali, parado em frente ao mar, a única coisa que vinha na sua cabeça era o medo de perdê-la.

(escrito em 2010)






4 de novembro de 2014

O sistema de transporte parisiense ou Uma parodia sobre o jeitinho francês

Um exercício mental para quem vive, viveu, ou “deu uma passada” pela metrópole fluminense. Imagine o metrô. Sim, o metrô. Com as suas poucas estações, seu serviço completado por ônibus expressos chamados de “metrô na superfície”. Imaginou? Prosseguimos, então. Imagina agora um garoto pulando a catraca. Imaginou? Imaginou ele entrando correndo? Imaginou ele descalço e sem camisa? Imaginou o segurança correndo atrás dele e derrubando ele no chão? Imaginou? Eu também. O problema é que eu só pedi para imaginar um garoto pulando a catraca. Ele pode estar voltando da escola, ele pode estar voltando da praia também. Pode não ser um garoto, pode ser uma menina ou um cara mais velho, pode ser um morador de rua, pode ser uma jovem executiva. Imagine pulando a catraca pretos, brancos, pobres, ricos, classe média, bem-vestidos, maltrapilhos... Imagine esses caras pulando a catraca na Estação Cantagalo ou pulando a catraca na Estação Alvorada... Imaginou? Não? Difícil, né? Quase não dá para imaginar.
Agora imagina eles pulando a catraca em Paris. Imaginou? Pois é, os parisienses não imaginam. Eles pulam mesmo e pronto.
Eu não estou falando de pular a catraca durante manifestações populares ou greves. Estou falando de você lá no dia a dia, voltando do trabalho, e ao seu lado um garoto de 15 anos passa sem pagar, ou uma senhora catadora de latinhas ou uma jovem rica... E assim: pulando ou se espremendo na lateral da catraca ou simplesmente entrando pela porta de trás do ônibus. Fim.
E aqui? Ah... Aqui eu nem preciso imaginar, eu vejo. Você já viu também.
O moleque vem correndo e pula a catraca. O segurança acha que tem o direito de vir correndo, derrubar o moleque no chão, dar uma chave de braço e ainda chamar de vagabundo. Ou o motorista vai parar o ônibus e dizer: só continuo dirigindo se você descer. Ou vai puxar o moleque pelo braço e empurrar para fora do ônibus. Ou vai passar a viagem toda abusando verbalmente da mulher que não pagou.
Agora a pergunta: e lá em Paris? O que o motorista do ônibus faz com quem não paga a passagem? Nada, minha gente. Ele pode até acender o sinal de "por favor, não esqueça de validar seu bilhete" ou muito raramente (muito mesmo) ele pode até dizer alguma coisa, mas quem já não planejava pagar, ignora as tentativas do motorista e continua a viagem sem maiores aborrecimentos. E o segurança do metrô? Nada. Ele também não é pago para isso. Ué? Mas e aí? Quem paga pelo prejuízo? Ô! Essa parte da história é muito linda.
Existem fiscais. Pessoas como você e eu que vão entrar no metrô/trem/tram/ônibus e conferir o comprovante de pagamento de TODOS os passageiros. É praticamente um arrastão de fiscais – com o perdão da metáfora carioca. Entram uns 30 fiscais de uma vez num vagão com 60 pessoas. Sem uniformes, apenas com uma faixa de identificação no braço e uma maquininha eletrônica para conferir passagens (parece uma dessas de cartão de crédito). E eu disse conferem TODOS porque é todo mundo mesmo: da senhora moradora de rua até o engravatado de Armani. Sem preconceitos, mesma multa. E sem desculpa também.
E o sistema fica mais lindo. Existem estudos estatísticos sobre quantas pessoas não pagam a passagem por mês para cada sistema de transporte, região, etc... Então é calculado quanto deve cobrado a afim de repor as passagens perdidas: qual é o valor da multa e a quantidade de pessoas a serem cobradas. Funcional.
O que mais impressiona na estrutura é o próprio parisiense. Não passa pela cabeça por um momento sequer que ele é corrupto porque pulou a catraca. Pode ser por motivos diferentes. Pulou porque não tinha dinheiro ou só porque não tinha trocados. Pulou porque não se importa ou porque acha que pode. Tanto faz. Ele não tem direito a não pagar, mas de uma forma dialética meio contraditória ele tem. E ele sabe que tem. Ele não se acha mais ou menos digno de exercer e cobrar seus direitos como cidadão porque pulou o catraca na sexta a noite, roubando dois euros do sistema de transporte. Nem o fiscal vai deixar de conferir o bilhete “do homem de bem”, nem deixar de cobrar a multa da elegante senhora sexagenária. Muito menos o motorista vai ofender o passageiro que entrou pela porta de trás.
Gosto muito desse no-mea culpa, esse jeitinho francês, esse jeito democrático de ser corrupto. Não, eu nem estou falando mais apenas sobre transporte. Nós, por outro lado, temos um sistema de hierarquização da corrupção, como se uns tivessem mais direito a roubar do que outros. Porque uns podem ser tratados de seu doutor e roubar e outros são vagabundos, que têm que morrer mesmo porque roubaram. Porque comparamos não devolver o do troco dado a mais na vendinha com a corrupção em Brasília.
Existe uma espécie de “direito ao roubo”, “direito ao crime” que é dado a uma elite. E existe um “não direito ao crime” a todos os outros pobres infelizes fora dessa elite. Uma coisa estranha, esquisita... Uma herança meio colonial, talvez... Porque o português podia roubar porque trabalhava para coroa. Um zé-ninguém não podia, não pode... Talvez daí venha essa nossa mania de respeitar o engravatado ladrão, ou de se achar um cidadão menos digno porque pagou menos no almoço, sem o cara do caixa perceber. Nenhum de nós tem direito a roubar e todos somos sujeitos as mesmas leis. Ou pelo menos deveria ser dessa maneira. E até mesmo quando você rouba uma caixa de leite no supermercado, você continua tendo direito aos seus direitos. Inclusive direito de cobrar que os corruptos (os de verdade, os engravatados) sejam presos. E não: roubar uma caixa de leite não te faz tão criminoso quanto quem desvia a renda da merenda escolar.

---------
Um muito obrigada a Anna Bkp e John Jnk pelos papos inspiradores e comentários relevantes. :)

24 de fevereiro de 2012

Sangue


Problema meu! Ninguém tem nada com isso!” Ah... As delícias do livre arbítrio! Que sensação! Que poder! Subir nos calcanhares dos próprios desejos e decidir o rumo da vida. Subjugar a moral dos outros em favor de nós mesmo. Afinal, quem, se não nós? Esperar a compreensão e a tolerância de outros pode ser uma espera interminável, uma conquista nunca alcançada. Então, quando o seu eu rompe com paradigmas e moralismos, você será o responsável solitário por suas ações. Suas escolhas, seu destino, sua vida, sua responsabilidade. Você, sem pedir permissão para ser você, com todo o prazer e desventuras que possa acarretar.
Tudo muito lindo, um poema sobre liberdade. Mas não é bem assim. Há sempre consequências, e dificilmente elas estão limitas a atingir apenas você. Sempre tem uma zona de impacto. Pequenas, desprezíveis, essas não são o problema. As irreversíveis são as temidas, os verdadeiros demônios do futuro imprevisível. Talvez não acredite em demônios, nem nos metafóricos, tão bonitos. Talvez não responda por religião ou seita nenhuma. Talvez não acredite em nenhuma manifestação divina e nem em Deus ou deus. Talvez você esteja bem consigo e seja senhor da sua consciência. E os possíveis enganos cometidos na vida não passem de aprendizados legítimos ou do acaso. Pecados não existem porque não têm necessidade de existir. Então, confessar o quê? Pra quê?
Numa doação de sangue, num ato tão simples e tão altruísta, você confessa. Não estou falando do questionário sobre hábitos sexuais, uso de drogas, medicamentos, tatuagem, doenças cardíacas, etc. que respondemos a enfermeira. Estou falando da última pergunta, daquele papelzinho entregue a você, que só você vê a reposta, só com o seu número de protocolo, com a seguinte pergunta: Você acha que o seu sangue serve para outros? Não por acaso a perguntinha chama-se auto exclusão. Sua última chance de responder, de confessar, sem nenhum julgamento ou constrangimento. Superando toda a ciência e segurança do exame de sangue que vai ser feito, independente de qual seja a sua resposta. Um momento de reflexão sobre todas as suas ações relacionadas ou não com a doação de sangue, questionado se o mesmo sangue que vive em você pode ser bom para mais alguém. Se o seu sangue é bom. Se o seu sangue serve. E aí, todos os seus pecados, seus arrependimentos, suas dores, seus prazeres, tudo que define a sua vida numa confissão: Essa vida que corre em mim, serve para mais alguém? Isso é poético. Não importa o credo, não importa a raça (se é que isso existe), você confronta a si mesmo, sem moralismos, sem punições.
 Pra ver: ONE BLOOD

17 de fevereiro de 2012

20 anos em kilogramas


Joguei a vida fora. Juntei cadernos, desenhos. Juntei o maternal e a oitava série (ou nono ano). Achei minha primeira lagrangiana, olhei para minha caligrafia do C.A. Separei o mapa mundi de 97 feito no papel manteiga, escolhi duas ou três figuras em carbono. Separei espirais de papeis, desgrampiei provas do Fundão. Empilhei uns 20 anos de papel, todos pra reciclar. Guardei duas pastas com o que restou. Passei adiante artigos, livros, revistas. E agora, sem peso nas costas, sem entulho no armário, estou livre para ir. Só não descobri pra aonde vou com o pouco que sobrou. O peso ajudava a definir.

10 de fevereiro de 2012

Contra Capa

Na livraria, uma encadernação pequena com capa grossa e um elástico usado com fecho, tinha na capa uma caricatura e, logo abaixo, dizia “Fernando Pessoa”. Pensei que se tratasse de uma agenda, na qual a cada grupo de páginas tivesse um verso ou um poema. Mas também podia ser um pocket book, apesar da fecho-elástico. Quando o abri não tinha nada, era o vazio total, nem pauta as páginas tinham. Procurei pela contracapa algum poema, algum verso que sustentasse a promessa de Fernando Pessoa. Nada. Um pequena biografia, talvez? Nada. Nenhuma letra, nem uma frase. Eu já me deparei com várias encadernações assim, eu acho. Algumas belíssimas, temáticas, com a capa da Mata Atlântica e a cada 10 páginas um texto sobre um animal em extinção, ou outro assunto do genêro. Uma agenda da Margaret Mee com uma pequena reprodução por página. Até o caderno do Ben 10 vem com o logo por página. Cada um com uma ideia, cada um com uma proposta. Ainda sim, uma proposta sobre coisa alguma só me leva a pensar que quem compra um Fernando Pessoa vazio, pode ser vazio quanto as páginas.